Manifestação sobre a “Ideologia de Gênero”

Manifestação da Diocese Anglicana do Paraná sobre o uso do termo “Ideologia de Gênero” e suas implicações pastorais e políticas na atual conjuntura social brasileira, sobretudo no surgimento de diversos movimentos reacionários utilizando esse termo para atacar direitos de minorias LGBT e sua instrumentalização no debate eleitoral. 

“Igreja Anglicana diz que meninos devem ser livres para usar saias e saltos sem preconceitos”, matéria do “El País” de 14/11/17

 

 

 

MANIFESTAÇÃO SOBRE “IDEOLOGIA DE GÊNERO”

“O pai de vocês é o diabo, e vocês querem realizar o desejo do pai de vocês. Desde o começo ele é assassino, e nunca esteve com a verdade, porque nele não existe verdade. Quando ele fala mentira, fala do que é dele, porque ele é mentiroso e pai da mentira.” (João 8:44, Edição Pastoral)

 “Assim sendo, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:28, Nova Almeida Atualizada)

A Diocese Anglicana do Paraná vem a público defender a família e os valores cristãos e humanistas. Fazemos isso no ensejo da organização do denominado “Movimento Gênesis – Homem e Mulher os Criou”, que, segundo a imprensa, se trata de uma iniciativa de união entre católicos e evangélicos “na criação de um projeto contra a ideologia de gênero” que “tem como objetivo reforçar o conceito de que a família, baseada no casamento entre um homem e uma mulher, é um projeto de Deus para o desenvolvimento saudável da sociedade e do ser humano”.

Acreditamos que toda iniciativa de diálogo ecumênico é positiva e deve ser fomentada, mas reafirmamos nossa convicção na importância de um ecumenismo de serviço, voltado às necessidades humanas e no combate à discriminação e violência. Como pessoas cristãs é nosso dever abraçar a totalidade da dimensão humana, valorizando a família em todas as suas configurações, inclusive àquelas formadas por pessoas do mesmo sexo. A família é sim um lindo projeto de Deus, onde relações saudáveis se constroem em amor, respeito e solidariedade. No seio de nossas famílias nascem pessoas lésbicas, gays, bi e transexuais; tais pessoas devem ser amadas e protegidas contra toda forma de discriminação e preconceito, e um Estado laico deve favorecer sua formação integral como seres humanos livres e iguais para que elas também possam formar suas próprias famílias.

Cabe ressaltar que a denominada “ideologia de gênero” que várias pessoas se propõem a combater não existe. Existem sim mulheres e homens que dedicam suas vidas a estudar o complexo fenômeno da sexualidade humana, em suas várias vertentes e performances. As Instituições Acadêmicas perpetram tais estudos cientes de sua vocação humanística e seu compromisso com a verdade e a ciência. Nem sempre as pesquisas científicas podem concordar com textos obscuros escritos para outras culturas e distantes cronologicamente de nossas vidas por vários milênios.

O Anglicanismo acredita na leitura das Sagradas Escrituras amparadas pela Tradição da Igreja, pela Razão e com sentimentos e compaixão por todas as pessoas. Portanto, denunciamos como diabólica (no sentido de maltratar e dividir famílias e a própria sociedade) essa leitura rasa e fundamentalista do mito bíblico da criação e como mentirosa a desculpa de combate a qualquer ideologia, sobretudo a de gênero.

Rememoramos as cruéis “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”, que ajudaram a mergulhar nossa nação em décadas de morte. Nas mãos de lideranças cristãs conservadoras de 1964 está o sangue de uma geração torturada e brutalmente assassinada por um Regime Ditatorial. Em 2018, às vésperas do processo eleitoral mais complexo da história do Brasil as mesmas lideranças buscam novas ideologias para combater, com exatamente o mesmo objetivo: eclipsar o verdadeiro debate político, eivando o processo eleitoral com fanatismo religioso, se aproveitando da boa fé do povo brasileiro para facilitar o poder às mesmas elites conservadoras que sempre instrumentalizaram uma visão desencarnada da moralidade cristã como plataforma política em detrimento de um projeto de nação e das pautas progressistas.

O pecado da mentira recai sobre quem inventa uma “ideologia de gênero” para combater, escondendo seu preconceito e incapacidade de amar o próximo. Mas nessa cruzada fundamentalista mais pecados são cometidos. O pecado de famílias destruídas, de crianças transexuais expulsas de casa e condenadas a prostituição. O pecado de jovens que se suicidam por se sentirem desamparados pela religião em que nasceram.  Esse sangue clama por justiça diante de um Deus, que encarnou seu filho, nascido de uma mulher e com dois pais, para amar!

Nos colocamos à disposição para um diálogo ecumênico e inter-religioso de amor e liberdade, que valorize a dignidade de todas as pessoas. Acreditamos no diálogo e na aceitação das diferenças e estamos prontos para contribuir com nossa tradição humanística de interpretação bíblica na construção de uma sociedade de pleno direito e de um cristianismo acolhedor.

 

Curitiba, 18 de fevereiro de 2018. Primeiro Domingo da Quaresma.

Naudal Alves Gomes

Bispo Diocesano

Emerson Robson Aparecido Silva

Secretário Diocesano

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