Carta Pastoral sobre o Segundo Turno das Eleições

Diocese Anglicana do Paraná | Carta Pastoral, outubro de 2018

“um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros” João 13.34

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” Mateus 5.9

 

Irmãos e irmãs, neste tempo de eleições em que a sociedade se radicaliza em suas discussões, como pessoas seguidoras de Jesus Cristo, precisamos observar parâmetros evangélicos muito claros para que sejam norteadores de nossas falas e atitudes.

Há um a falsa compreensão expressada em dito popular de que “religião, política e futebol não se discutem”. Tudo pode ser objeto de discussão e diálogo desde que seja feito com respeito à pessoa e a dignidade humana e de acordo com os princípios ensinados e vividos por nosso Mestre Jesus. A discussão e o diálogo são dons que Deus nos têm oferecido, como seres que se comunicam que somos. Se renunciarmos a esses dons, renunciamos a nossa própria natureza como seres sociais, chamados à vida em comunidade e a dela participar contribuindo para sua construção, baseados na na ética, na acolhida, no respeito, nos direitos fundamentais da pessoa. Somente renuncia ao diálogo e discussão quem não “quer se incomodar” ou seja, deseja ficar indiferente ao que ocorre em seu entorno, como se isso fosse possível. O que venha a ocorrer atingirá a todas as pessoas, indistintamente.

No momento político atual, muitos tem procurado dialogar, expor ideias, princípios, apresentar candidatos, etc. Outros entendem que que isso não deve ser feito, especialmente nas redes sociais. Contudo, não podemos nem devemos nos furtar a participação, a discussão e diálogo sobre todos os assuntos. Se não for possível nas redes sociais é necessário oportunizar rodas de conversa pois política tem a ver com a “administração da polis”, com a qual estamos todos e todas comprometidos. A fé, o amor, a esperança e a solidariedade permearão nossos debates com a finalidade de que todas as pessoas, na vida em sociedade, tenham vida “plena e abundante – pois foi para isso que vim, nos diz Jesus” (Evangelho de João 10.10). E, além disso, a compreensão anglicana de missão nos recorda que devemos atuar na transformação das estruturas injustas e isso passa necessariamente por decisões políticas.

No momento político atual vemos pessoas consideradas de bem e pessoas cristãs sendo coniventes e, em alguns casos, até apoiando discursos de ódio, de incentivo à violência, a exclusão. Isso tem encorajado algumas pessoas, que comungam com esse comportamento para a vida em sociedade, a realizar atos concretos de violência, ameaça verbal e física e tem provocado até mortes. É algo assustador. Ouvi depoimentos de experiencias vividas por pessoas que sofreram violência e intimidação por serem mulheres de movimentos feministas, de pessoas da comunidade LGBT, pessoas em situação de rua. E os que praticam isso, se sentem amparados e até incentivados por um dos candidatos à presidência e até por alguns líderes (auto denominados) cristãos.

Não consigo imaginar uma pessoa que exerce violência verbal e/ou de fato contra mulheres, contra pessoas LGBT, contra pobres, negros, indígenas, contra crianças, contra os que pensam diferente de si, e tudo que contribui para limitar a dignidade da existência humana, consegue comungar com a consciência tranquila – consegue receber o sacramento do Cristo que se dá como alimento. Sendo que Cristo é o Amor de Deus presente no sacramento.

Temo pelas mulheres de minha família, temo por nossas crianças, temo por nossos amigos e irmãos LGBT, temo pelos nossos irmãos/irmãs que estão em situação de vulnerabilidade, na rua, temo por aqueles que tem posições que são consideradas politicamente incorretas e ou demonizadas, temo por pessoas que pertencem a religiões diferentes das consideradas oficiais, por isso envio esse apelo à comunidade diocesana e me coloco em oração para que o amor vença o ódio.

Queridos irmãos e irmãs, nós somos gente batizada. Somos “santas e santos” de Deus. Somos instrumentos da graça e do amor de Deus. Somos sinais do Reino de Deus, aqui e agora, cujos fundamentos são: paz, justiça, direito, amor. Com isso somos comprometidos. Esses ensinamentos devem nortear nossa vida e nossas relações. Assim, não podemos concordar com ninguém, nem com políticos nem com religiosos, que compactuem, incentivem e ou promovam a violência verbal, física, a violência das armas. Nossas armas são a solidariedade, o amor incondicional, a acolhida, o diálogo e o respeito com a pessoa e sua dignidade e direito.

Com minha bênção e oração,

Naudal

Bispo Diocesano e Primaz

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

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