Carta Pastoral ao XIII Concílio Diocesano

CARTA PASTORAL

Aos irmãos e irmãs reunidos no 13º Concilio Diocesano, nos dias 28 a 30 de abril, na Paróquia Santo Agostinho de Cantuária, em Foz do Iguaçu.

  1. Oração – Senhor Deus da vida que tua igreja reunida em concilio receba toda a inspiração necessária para seguir, com fidelidade, o caminho do discipulado e da ação profética. Dota a cada um de nós, seus membros, de tamanha fé que nosso testemunho anime e mobilize muitas outras pessoas para o encontro contigo, para proclamar e servir conforme Jesus Cristo. Amém.

 

  1. Saudação – Queridos irmãos e irmãs da Santo Agostinho de Cantuária e missões. Estimados irmãos e irmãs da diocese, nos reunimos com alegria para mais uma assembleia diocesana, é nosso 13º Concilio Diocesano. Alegria pela hospitalidade, alegria pelo encontro, alegria pela partilha de nossos dons e experiências, alegria porque Deus tem nos vocacionado e quer contar conosco para a sua Missão. Alegria e ação de graças a Deus por tudo o que ele tem nos proporcionado, pelo que temos conseguido realizar, apesar do nosso contexto como igreja e do contexto em que somos chamados a adorar e servir.

 

  1. Como ler a Bíblia, a partir da vida, a vida ilumina o texto e o texto ilumina a vida. A experiência e a intensão que move o leitor levará a que enfatizemos a experiência da presença e ação de Deus. Assim, poderemos ver nela a presença de um Deus guerreiro, vingativo, que destrói o pecado e os infiéis pecadores. Um Deus que se alegra com a morte dos seus inimigos e com os que, com puro coração, o louvam e oferecem sacrifícios e doam seus dízimos para o templo. Um Deus que em troca de fidelidade – promessas, disciplina -, oferece segurança, tranquilidade e que de forma mágica transforma realidades adversas em prosperidade e alegrias.

 

  1. Jesus, a “chave de leitura”. Devemos ter bem presente que a Antiga Aliança, Velho Testamento, é a história do povo de Deus, sua caminhada com seus erros e acertos que apontam para a Nova Aliança, o Novo Testamento. Que apontam para a vinda do Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Salvador. E Ele é e será sempre a principal “chave de leitura” das Sagradas Escrituras, a Bíblia. Essa “chave de leitura” da Bíblia será nossa segurança para melhor compreendermos a vontade de Deus para a vida humana e vida de toda a criação. Assim, tudo deve ser sempre lido, interpretado e aplicado a luz do ensino, vida e testemunho de Jesus Cristo. Nenhuma fundamentação teológica ou mesmo doutrina poderá estar acima do nosso dever de amar incondicionalmente a todas as pessoas.

 

  1. Devemos, portanto, olhar para Jesus Cristo, o filho de Deus, o filho de Maria e José, nascido em Belém da Judeia, que viveu em Nazaré. Olhar para o Jesus encarnado, vivo entre nós e em nossa história. E procurar ter bem presente o que Ele realizou. O que pregou, quanto curou, perdoou e acolheu a todas as pessoas sem distinção, ensinou, libertou, reconduziu o ser humano a sua dignidade diante da sociedade, não se importou em estar com pecadores, prostitutas, cobradores de impostos, – pessoas consideradas desqualificadas para a sociedade de seu tempo. Não se importou com a má fama que lhe imputaram de “beberrão e comilão”. A sua atuação deverá inspirar a todos nós, seus discípulos e discípulas. Se Ele é a chave de leitura da Palavra de Deus que ilumina a vida, nossa e do mundo, deverá, certamente, iluminar a vida, o testemunho e missão da própria Igreja.

 

  1. A Missão em Isaías. Em Isaías, a missão das pessoas de fé – do povo de Deus – verdadeiramente aceita por Deus é aquela que se traduz concretamente em atos que dizem respeito as nossas relações. Fé e ação, das pessoas em comunhão com Deus, tem uma relação inseparável, não podem ser dissociadas pois “a fé sem obras é morta!”. “Romper as amarras da injustiça, desfazer as correntes da canga, por em liberdade os oprimidos…repartir seu pão com quem passa fome, hospedar em casa os pobres sem abrigo, vestir o que se encontra nu…se assim você fizer, sua luz brilhará como a aurora…esse é o jejum que eu escolhi” afirma Deus através do profeta (Isaías 58.6 – 8). Fé e ação. Fé e obras. Comunhão plena! Jesus recupera essa compreensão de Missão que agrada a Deus.

 

  1. A Missão em Lucas. Em Lucas, Jesus apresenta os mesmos fundamentos de Isaías e outros textos da Antiga Aliança ao descrever qual era sua própria Missão. “O Espírito do Senhor está sobre mim pois me ungiu para anunciar a Boa Notícia aos pobres, anunciar a libertação dos presos, recuperar a vista aos cegos, dar liberdade aos oprimidos, e para anunciar o Ano da Graça do Senhor”, depois declarou: “hoje se cumpriu essa passagem da Escritura!”(São Lucas 4.18 – 20)

 

  1. O Testemunho da Mulher Samaritana. Em João, texto para inspiração de nossa assembleia conciliar e para o ano, vem do encontro de Jesus com a mulher samaritana junto ao poço, na cidade de Sicar, na Samaria – terra dos samaritanos ou seja, terra de gente desprezível!

 

Nesse encontro Jesus quebra, rompe com algumas barreiras: de gênero, étnica, social, cultural, econômica e religiosa. É um encontro nada comum, muito pelo contrário, um encontro que precisa ser analisado por nós minuciosamente para dele tirarmos lições e ensinamentos para nosso comportamento na relação com nossos irmãos e irmãs e na relação com a criação.

 

  1. O testemunho da pessoa marginalizada. Desse encontro, evidencio o testemunho que a mulher samaritana deu para as pessoas moradoras dessa cidade: “muitos samaritanos dessa cidade acreditaram em Jesus por causa do testemunho que a mulher tinha dado” (São João 4.39). Que testemunho foi esse que levou muitas pessoas a acreditarem em Jesus? E aqui devemos lembrar a situação da mulher no tempo de Jesus, nos tribunais seu testemunho não tinha nenhuma validade! O mesmo ocorreu por ocasião da ressurreição, uma mulher foi ao túmulo. Ela viu o túmulo vazio. Ela viu os anjos, compreendeu a mensagem dos céus e retornou para testemunhar aos amigos/as de Jesus que ele não estava lá, tinha ressuscitado! A palavra de Maria Madalena foi: “Eu vi o Senhor!” (S. João 20.18)

 

  1. As consequências do testemunho. O testemunho da mulher samaritana foi contundente, persuasivo, mobilizador. As pessoas foram ver, foram encontrar Jesus. Num primeiro momento “por causa do testemunho dela” e, a partir do encontro com o Senhor, num segundo momento, acreditaram porque “eles mesmos ouviram e souberam” que realmente era o Messias, o Salvador, enviado por Deus. A partir do testemunho, ocorreu o despertar da fé, que desacomodou, que inquietou, e mobilizou para que fossem em busca do Senhor. Foram, viram e ouviram. A fé amadureceu, cresceu e passaram a acreditar por suas próprias convicções. Se tornaram autônomos, independentes, protagonistas. O desejo de Jesus sempre foi esse, que a partir do encontro com ele, as pessoas seguissem livres! Pessoas livres, protagonistas de sua vida e de sua própria história. Livres para amar. Livres para servir. Livres para acolher sem distinções.

 

  1. Nosso testemunho. Como estamos testemunhando? Temos mais conhecimento sobre Jesus que a Mulher Samaritana. Ela teve que percorrer o caminho de um longo diálogo até perceber com quem estava falando. Nós partimos com o conhecimento da Palavra de Deus e temos o testemunho de muitos outras pessoas que nos antecederam. Nós temos a possibilidade da vida eclesial que nos alimenta, inspira e nos preserva em comunhão com o sagrado, que nos lembra e fortalece na comunhão com as demais pessoas, com a criação. Consequentemente, meu testemunho e teu testemunho, nosso testemunho, deve ser mais efetivo que o da Mulher Samaritana. Devemos conversar sobre isso.

 

  1. Amor de Deus pelo mundo. João 3.16, nos lembra que “Deus amou o mundo de tal maneira que enviou seu Filho unigênito…”, Em outro texto, na sua 1ª Carta, capítulo 4.7ss “Deus é amor. Amemo-nos uns aos outros. Onde há amor Deus ali está. Ninguém pode dize dizer que ama a Deus se não ama a seu irmão”. Jesus encarnou verdadeiramente essa missão, esse caminho, o caminho do amor incondicional, fraternal, acolhedor, libertador. Nossas ações, movidas pela fé, testemunho e serviço, deverá seguir por esse caminho. O Caminho de Deus, o Caminho de Jesus, o Salvador, o caminho do sopro do Espírito Santo de Deus. Olhar o mundo, a sociedade, com amor. E, a exemplo de Deus e de seu Filho Jesus, nos movimentarmos para testemunhar de forma contundente esse amor. O contexto social, econômico, político e religioso em que vivemos, nos desanima muitas vezes, contudo, a fé e o jeito de Deus, o jeito de Jesus, ser e amar, agir e servir deverá ser nosso parâmetro e nossa força para continuarmos adiante. Nossas ações como discípulas e discípulos de Jesus e nossas ações como comunidades cristãs devem responder às pessoas em suas diferentes situações e necessidades. O amor de Deus deve ser proclamado e vivido nas nossas relações com as pessoas nas suas diferentes situações como: enfermidades, violência, abusos, perda de direitos, exclusão, e em qualquer tempo em que a dignidade humana e a dignidade da criação forem feridas. Para que se sintam amadas por nós mesmos, pela igreja e pelo próprio Deus.  E todas as pessoas desejarão conhecer Jesus por causa do testemunho que tenhamos dado.

 

E a bênção do Deus Onipotente, Pai, do Filho e do Espírito estejam com todas e todos vocês!

Igreja a gente e testemunha com paíxão!

 

Amém.

Naudal Alves Gomes

Bispo Diocesano

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